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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eu não mato o trabalho, o trabalho é que me mata!




Selecionei um texto de Cristiane Segatto que faz pensar sobre o peso de cada trabalho em nossas vidas e o que se faz para se manter o emprego e a remuneração!


É o tipo de matéria que sempre faremos associações com algum caso de alguém que conhecemos!

"Adoro camisetas dessas que trazem frases sintéticas que são verdadeiros manifestos.

Elas vão direto ao ponto, gritam mensagens e sentimentos que grudam nos nossos neurônios feito chiclete.

O equivalente moderno desse meio de comunicação rebelde é o Twitter.

No espaço de poucos caracteres alguém esperneia, berra, reflete com inteligência e bom humor.

O mundo lê e se identifica.

Assim como os bons tweets, algumas camisetas são simplesmente geniais.

Há alguns meses entrei com a minha filha numa loja moderninha instalada no espaço estreito que já foi uma garagem.

Uma camiseta trazia a estampa de uma lousa com giz e apagador.

No quadro negro, a frase:

“Não mato aula. A aula é que me mata”.


A frase é das boas: politicamente incorreta e instigante.

Por mais que eu considere a educação um patrimônio gigantesco e um valor fundamental é preciso reconhecer que o processo de aprendizagem é doloroso.

Na maioria das vezes, ser aluno dói.

É ser obrigado a cumprir uma rotina que não escolhemos, a aprender conteúdos que parecem inúteis e são esquecidos tão logo o bimestre acaba e a encarar chateações de todo tipo.

O desabafo da camiseta faz ainda mais sentido para as crianças da geração da minha filha do que faria para mim quando eu tinha os 10 anos dela.

Algumas escolas e professores até que se esforçam, mas, na maior parte dos casos, as aulas são maçantes para a geração que já nasceu digital.

O mundo mudou, mas o script da vida escolar continua praticamente o mesmo: lousa, apagador, alunos sentados, professor em pé, ouvir, escrever, fazer lição de casa.

Para muitos alunos, escola é o próprio tédio.

Esses garotos não matam aula.

Estão lá.

De corpo presente, mas dispersos.

É a aula que os mata.

Fiquei pensando em que medida esse sentimento (de estar presente, mas incomodado ou infeliz) nos persegue desde a escola até a vida adulta, quando entramos no mercado de trabalho.

Se o trabalho é fonte de tristeza, que danos emocionais pode causar?

Lembrei de alguém que poderia me dar boas pistas.

No final do ano passado, assisti em Fortaleza a uma palestra do psiquiatra Duílio Antero de Camargo, durante o Congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria. Depois de conversar com ele nesta semana, fiquei convencida de que grande parte dos trabalhadores (talvez a maioria) tem vontade de gritar: “Não mato o trabalho. O trabalho é que me mata”. Se esse é o seu caso, mãos ao Twitter.

Um dos campos de pesquisa de Duílio é o presenteísmo.

Esse é um termo que significa “estar presente no trabalho, mas com um sintoma leve de alguma doença ou distúrbio”.

A pessoa não falta, mas trabalha doente.

Não é só o trabalhador que perde com isso.

A empresa também perde.

“Pesquisas realizadas nos Estados Unidos demonstram que as perdas de produtividade por depressão e dores sofridas por trabalhadores que não faltam ao trabalho superam as perdas de produtividade derivadas do absentesísmo”, diz Camargo.

Ele é um dos especialistas do setor de psiquiatria do trabalho do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

O presenteísmo é um problema conhecido pelos profissionais de recursos humanos e pelos médicos do trabalho.

A maioria deles, porém, se preocupa mais com os fatores ambientais que provocam mal-estar e doenças: ergonomia, calor, segurança do trabalho etc.

Duílio decidiu investigar um campo pouco explorado.

Ele pesquisa os problemas emocionais e os transtornos psiquiátricos originados no trabalho.

Está lançando o livro Psiquiatria ocupacional, pela Editora Atheneu.

Os transtornos mentais (entre eles, os depressivos) já são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil.

Ficam atrás apenas dos acidentes e das lesões conhecidas como LER/Dort, o conjunto de doenças provocadas pelo esforço repetitivo.

Na região sudeste, os transtornos mentais ocupam o segundo lugar.

“A maioria das empresas trabalha com metas e impõe cobranças radicais.

A pressão exagerada por produtividade e o excesso de tensão provocam problemas emocionais que podem desencadear transtornos mentais graves”, diz Camargo.

A coisa é mais ou menos assim: o funcionário trabalha num ritmo insano, enfrenta pressões e acostuma-se a ouvir reclamações constantes da chefia em reuniões constrangedoras.

Passa anos nesse ritmo como se esse fosse o ambiente natural de sua profissão.

Não reclama, por medo de perder o emprego ou porque não quer ser considerado um fraco.

Até que um dia os problemas emocionais começam a aparecer.

Pode ficar ansioso, meio deprimido ou sentir medo.

Se isso durar um dia ou outro e não atrapalhar a vida do sujeito, significa que ele ainda não está sofrendo de uma doença psiquiátrica.

Mas se a ansiedade, a depressão e o medo perdurarem e começarem a provocar problemas físicos (taquicardia, hipertensão, dores de cabeça, insônia, por exemplo) pode ser o sinal de que um transtorno mental está instalado.

Esse é um terreno fértil para uma série de males, entre eles transtorno do pânico, depressão, transtornos do sono, síndrome de burnout (esgotamento total) etc.

Você reconhece essa descrição?

Aí no seu trabalho tem alguém que passou por isso?

Infelizmente essa é uma situação corriqueira.
...
Duílio e outros profissionais procuraram estabelecer aquilo que se chama nexo causal. Ou seja: de que forma a situação vivida no trabalho pode ter provocado o dano observado.

A depressão do sujeito foi disparada pelo chefe ou pelo casamento ruim?

Pelo assédio moral na empresa ou por sua condição sócio-econômica?

No livro, Duílio apresenta um questionário que ajuda o médico do trabalho, os psiquiatras e os peritos a fazer essa distinção.
...
Será que é tão difícil construir um ambiente profissional saudável?

É natural que o relacionamento entre chefes e subordinados seja conflituoso.

Ele envolve relações de poder e uma convivência forçada entre pessoas que não se escolheram.

Se homens e mulheres que se casam apaixonados e de livre e espontânea vontade às vezes brigam como cães e gatos, o que esperar da relação entre chefes e funcionários?

Acho que uma regra básica do bom senso deveria prevalecer: não faço aos outros aquilo que não gostaria que fizessem a mim.

Essa norma simples já seria capaz de evitar muito do desrespeito e dos danos emocionais que ouvimos por aí.
...
Há saída? Segundo Duílio, as empresas precisam ser sensibilizadas e criar programas preventivos.

Isso significa avaliar a saúde mental dos funcionários por meio de questionários e testes e ensinar as pessoas que ocupam cargos de chefia a lidar com emoções.

“Não adianta tentar mexer na base.

Quem tem o poder é que precisa aprender a lidar com gente e a zelar pela saúde mental de todos”, diz Duílio.

Os danos emocionais são especialmente perversos quando acometem os profissionais que ganham os menores salários.

Aqueles que estão indefesos, sem a menor condição de pagar uma psicoterapia ou um tratamento psiquiátrico.

Os profissionais mais qualificados têm a chance de colocar na balança as perdas e os ganhos que cada empresa oferece.

Vale a pena batalhar, se destacar, competir, suportar todas as pressões, conquistar um salário invejável -- e depois torrá-lo na terapia ou no psiquiatra?

Conheço vários profissionais, de diferentes áreas, que estão nesta situação.

E outros que ainda não procuraram ajuda, mas deveriam.


CRISTIANE SEGATTO
Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde 1998.
Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Felicidade tem preço

Dentro da eterna análise sobre a relação entre dinheiro e felicidade, segue um texto da Cristiane Segatto a respeito dos seus pontos de vista.

"Quanto custa a felicidade contida numa fatia fina de bolo de fubá?


E se ela for acompanhada de um café expresso dos mais bem tirados?



Em São Paulo, num lugarzinho charmoso, a felicidade custa R$ 7.
Foi exatamente o que paguei por ela um pouco antes de começar a escrever esse texto.
Fui muito feliz vendo o garfo afundar lentamente na massa cremosa, cercada de canela em pó.
Quando, na minha boca, o café amargo se juntou ao creme adocicado, fechei os olhos para perder de vista todo o resto.


Fazer uma pausa no meio da tarde para tomar um café num jardim precioso é um privilégio.

foto extraída da internet

Um privilégio acessível, digamos assim.

Cada um de nós pode abrir espaços na rotina para encaixar pequenos prazeres.

Basta querer.

Não acredito na felicidade plena, total, irrestrita.
Acredito nos pequenos nacos de felicidade que andam espalhados por aí.
A grande arte é saber agarrá-los.

Acho que a vida fica mais leve quando a gente é capaz de criar umas brechas por onde a felicidade pode se esgueirar e nos surpreender.

Para ser feliz é preciso dar chance à sorte.

Foi o que eu fiz quando passei na frente daquele café.
De fora, ele parecia uma floricultura.
A placa discreta não dava muitas pistas sobre o que eu encontraria ali.
Resolvi arriscar.
E me dei muito bem.
No fundo do quintal comprido e florido, encontrei uma casa de tijolinhos com uma varanda acolhedora.

Se estivesse com meu laptop, teria escrito essa coluna lá mesmo.
Ao ar livre, debaixo de uma árvore forrada de flores brancas e ouvindo o barulhinho da água correndo num canto do jardim.
Amo o jornalismo, mas não sou muito fã de redações.
Gosto de estar do lado de fora delas - trabalhando na rua ou escrevendo minhas matérias num canto sossegado, longe do agito improdutivo.

A fórmula da felicidade não existe, mas cada um de nós sabe o que nos aproxima dela.
Essa é uma habilidade tão particular que parece não ter muita relação com ambiente cultural e condição sócio-econômica.
Sempre acreditei que a felicidade não tem preço, mas nesta semana li um estudo que me fez repensar algumas das minhas crenças.

Ontem (01/07) foi divulgado um artigo científico baseado nos resultados do maior estudo já realizado no mundo sobre a relação entre renda e bem-estar.

A pesquisa conduzida pelo Instituto Gallup foi realizada com 136 mil moradores de cidades e vilarejos remotos de 132 países.
Os voluntários foram entrevistados por telefone nas áreas urbanas e pessoalmente nas regiões distantes e menos desenvolvidas.
Os pesquisadores concluíram que o dinheiro pode, sim, comprar a felicidade.
Pelo menos um determinado tipo de felicidade.
Aquela que está relacionada à satisfação em relação às condições de vida.

"Tudo depende da forma como definimos felicidade", diz Ed Diener, professor de psicologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e coordenador do estudo.

"Se levarmos em consideração a satisfação do sujeito em relação à vida (como ele avalia sua vida de uma forma geral), há uma forte relação entre renda e felicidade", diz Diener.
Quanto mais elevada é a condição econômica do país e das famílias, mais elevados são os índices declarados de satisfação em relação à vida.
Faz sentido.
Se o sujeito tem emprego, moradia decente, saúde, descanso e lazer, maior é a probabilidade de que ele se sinta satisfeito.

O dinheiro parece ter pouca relação com um outro tipo de felicidade.
Aquela relacionada aos sentimentos positivos, como sentir-se respeitado, ter suporte social, autonomia e um trabalho desafiador.

"O dinheiro faz as pessoas felizes.
O efeito da renda sobre a satisfação em relação à vida é muito forte e universal", diz Diener. "Mas o dinheiro faz as pessoas se sentirem mais satisfeitas do que as faz se sentirem bem.
Os sentimentos positivos são menos influenciados pelo dinheiro e mais afetados pelas coisas que as pessoas fazem no dia a dia."

Uma análise de grande parte dos dados da pesquisa será publicada na edição deste mês do Journal of Personality and Social Psychology.
Os Estados Unidos, país com a maior renda per capita entre as nações analisadas, aparece em 16o. no ranking de satisfação em relação à vida e em 26o. na lista dos países cujos habitantes têm mais sentimentos positivos.

O Brasil participou da pesquisa, mas não foi incluído entre os dezoito países analisados no artigo científico de Diener.

Mas é possível encontrar no site do Instituto Gallup várias informações sobre os brasileiros (e compará-las com os cidadãos de outros países).

Os dados contrariam o estereótipo de que o povo brasileiro é mais feliz que a média internacional.
Durante a pesquisa, 20% dos brasileiros disseram ter sentido tristeza no dia anterior.
É o mesmo índice encontrado na Inglaterra, quase o mesmo verificado nos Estados Unidos (21%) e no Canadá (21%).
É um índice melhor do que o apurado em Portugal (30%) e na Bolívia (33%).

O Brasil saiu-se melhor quando a pergunta era: "Você sentiu amor ontem?".
Entre os brasileiros, 82% responderam sim. Um pouco mais do que nos Estados Unidos (80%), na Dinamarca (80%) e em Portugal (79%).

Esses dados sugerem que felicidade tem menos a ver com PIB e mais com postura pessoal em relação à existência.
O sujeito pode ser milionário e escolher levar uma vida sem graça.
Pode ser pobre e escolher a riqueza dos pequenos momentos felizes.
"O dinheiro nos faz sentir bem, mas a ação dele é limitada", diz a psicóloga Barbara Fredrickson, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.
"Sentimentos positivos, como a capacidade de se divertir, podem fazer muito mais por nós".

Quanto mais emoções positivas uma pessoa sente a cada dia, diz Barbara, mais acentuada é sua capacidade de se recuperar de situações difíceis ou estressantes.

"Pequenos momentos de prazer fazem florescer as emoções positivas.
Elas nos tornam mais abertos", diz ela.

"E essa abertura para o mundo nos ajuda a construir recursos que favorecem a recuperação diante da adversidade, nos mantém longe da depressão e nos permite continuar a crescer."

É por isso que Barbara diz que é tão importante cultivar "micromomentos de prazer".

Celebrar a vida mais vezes, com direito a bolo de fubá naquele cafezinho charmoso, está nos meus planos.

Para quem quiser conhecê-lo, ele se chama Flores na Varanda e fica na Rua Camilo, 455, na Vila Romana.

Não interprete essa recomendação como propaganda.
Os donos do lugar não me conhecem e nem imaginam que estive lá.
A dica é de coração.
Acho que os meus leitores (pelo menos os que moram em São Paulo) merecem viver uns minutinhos de felicidade naquele lugar.
Quem mora em outros estados e no Exterior pode me contar o que anda fazendo para ser feliz. Quem sabe, uma hora dessas, não apareço por aí?
Minhas férias estão chegando...
E eu sigo firme e forte no meu propósito de ser um pouquinho feliz a cada dia."


Alguém está a fim de curtir um cafézinho com bolo???


CRISTIANE SEGATTO
 Reprodução
foto extraída da internet

Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Qual é a cara do seu futuro?


Estou lendo uma série da Nora Roberts, assinando J D Robbs que é a Série Mortal.

Já estou no 8o. livro da Série, que é o Conspiração Mortal.

São livros que misturam aventuras de uma policial, desvendando diversos assassinatos, casada com um eterno e apaixonado romântico, e que se passa em New York, em 2058, com cenário absolutamente futurista.

Nessa época no futruro, as pessoas possuirão, segundo descrito no livro, diversos tratamentos de saúde e de estética anti-envelhecimento e viverão em média 110 anos, se bem cuidadas.

Não se entra em detalhes sobre planos de saúde, aposentadoria profissional, questões de habitação, de empregabilidade, etc, com essa população envelhescente...

Mas, saindo da ficção e entrando na vida real, um tema que muito têm me preocupado é o investir no futuro, é pensar em trabalhar, trabalhar, trabalhar, mesmo após a aposentadoria, é ter subsistência em saúde, moradia, empregabilidade, considerando, para a minha geração, uma maior longevidade ( se Deus quiser!).

Pensando no tema longevidade e subsistência, com qualidade de vida, fiz um link com mais um artigo publicado pela Cristiane Segatto (virei fã de carteirinha!), que transcrevo a seguir:



"Um artigo publicado recentemente no jornal The New York Times me fez refletir sobre o futuro que queremos.

A autora, Natasha Singer, conta de que forma o envelhecimento da população pode deixar na miséria as nações que não estiverem preparadas para lidar com ele. Durante o século 20, a expectativa de vida aumentou na maior parte dos países. Graças a gigantes invenções da medicina (os antibióticos e as vacinas são dois exemplos) e à melhoria das condições de trabalho e moradia e do acesso a água encanada e esgoto. Pela primeira vez na história humana, as pessoas com 65 anos ou mais devem se tornar mais numerosas que as menores de 5 anos.

O ponto levantado por Natasha é interessante: do jeito que as coisas vão, talvez não possamos nos dar ao luxo de viver tanto. Em muitos países, o número de idosos com direito a aposentadorias públicas, serviços de saúde e cuidados prolongados deve superar, em breve, a força de trabalho. ..... Em seu artigo, Natasha faz uma sugestão compatível com o tamanho do problema: grupos e organizações internacionais influentes deveriam assumir o envelhecimento como uma causa, a exemplo do que fizeram com o ambiente. ..... Se nada for feito, dificilmente conseguiremos resolver a equação complicada que nos aguarda: na próxima década, teremos mais idosos, mais doenças crônicas, mais custos.

O Brasil enfrentará esse desafio e também a tentação de adotar novas, maravilhosas e caras tecnologias. Em 2020, as pessoas com mais de 60 anos serão 14% da população (atualmente são 10%).

No plano individual, isso é bom.

Para o sistema de saúde, isso é ruim.

Antigamente, bastava dar antibióticos e despachar os doentes para casa.

Havia dois desfechos possíveis: eles saravam ou morriam.

Nas próximas décadas, será cada vez maior o contingente de pessoas que precisarão de cuidados médicos e remédios caros por muito tempo.

Teremos uma vida longa e cheia de remedinhos. As principais preocupações de saúde serão obesidade, os males cardiovasculares, o câncer e as doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.

Além das doenças crônicas que se tornarão mais frequentes, sempre haverá o imponderável - o surgimento de vírus e doenças.

Quer um exemplo? Nos anos 80, os médicos achavam que doenças infecciosas como a gripe seriam controladas e o câncer seria o grande problema.

Hoje, muitos tumores são curados e há pessoas morrendo com novas formas de gripe. O Brasil só vai conseguir enfrentar o desafio imposto pelo envelhecimento da população se cada um de nós tiver consciência de que vai ser preciso gastar cada vez mais dinheiro com saúde.

Isso é inevitável.

Vamos gastar mais no plano individual (na parcela do orçamento familiar destinada às despesas de saúde) e no plano coletivo (na parcela dos impostos destinados a essa área). O que me assusta é perceber que poucos brasileiros acham que estar preparado financeiramente para enfrentar uma doença inesperada é uma excelente razão para poupar dinheiro.

O que vemos atualmente é uma gastança e um endividamento generalizados.

É compreensível que as novas classes C e D, compostas por gente que nunca teve acesso aos bens de consumo, queiram consumir hoje tudo o que podem. O consumo é bom.

Movimenta a economia, alegra as famílias, estimula o trabalhador a conquistar o que deseja.

Mas a falta de cultura da poupança não contribui para o equilíbrio do orçamento doméstico.

O que vai acontecer se alguém ficar doente por muitos meses e não puder trabalhar?

Ou se alguém sofrer um acidente e ficar incapacitado?

A família vai perambular pelo SUS ou vai pagar um atendimento particular com tênis de marca, perfume importado, celular top de linha ou carro do ano adquirido em 60 meses? O número de brasileiros com dívidas superiores a R$ 5 mil, considerando todos os tipos de empréstimo, saltou de 10 milhões para 25,7 milhões, segundo dados divulgados pelo Banco Central.

O total pode ser muito maior porque ele não considera os cidadãos que não têm conta em banco - cerca de metade da população. Muitos trabalhadores de baixa renda estão absolutamente deslumbrados com as novas oportunidades de consumo.

....

Será que isso vai acabar bem?

O mais injusto nessa história toda é que os longos crediários e os parcelamentos das faturas de cartão de crédito (nos quais estão embutidos juros altíssimos) prosperam graças à ignorância matemática de grande parte da população.

Os pobres e a nova classe C não sabem fazer contas simples.

Estão gastando o que têm e o que não têm.

Precisam, urgentemente, aprender a planejar o futuro.

Pelo bem de sua saúde."

Cristiane Segatto, Revista Época - outubro/2010

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O valor dos pequenos prazeres



Tem gente que nunca é feliz!

Tem gente que é feliz sempre, tipo Polyana!

Tem gente que só é feliz com muito!

Tem gente que consegue ser feliz com pouco!

Tem gente que diz que a felicidade é o caminho!

Tem gente que diz que só há felicidade quando se alcança o sonho de ser feliz!!!

Tem gente que não consegue ser feliz em cidades grandes
!
Tem gente que é super feliz numa pequena cidade do interior!

Tem gente que é feliz no Rio de Janeiro,

e eu escolhi hoje um texto de alguém que descreve a felicidade em São Paulo!


Segue minha homenagem a todas as pessoas felizes, as cariocas, as paulistas, as mineiras, as brasileiras, as portuguesas e as de outras nacionalidades!


"Sábado eu fui feliz.

Aluguei uma bicicleta e pedalei na ciclovia do Parque Villa-Lobos, em São Paulo.

Nunca tinha estado ali num final de tarde.

O sol não ardia, a luz era alaranjada, o encanto era outro.

Meus músculos trabalhavam para minha mente se desgarrar.

Viajou ao passado, analisou o presente, bisbilhotou o futuro – não necessariamente nessa ordem.

Na primeira volta, fiz uma descoberta deliciosa: o point dos namorados no Parque Villa-Lobos não é o viveiro de mudas, não é a sombra das árvores, não é um cantinho qualquer.

É uma ribanceira com vista para a Marginal Pinheiros.

É ali que os casais – abonados, pobres ou remediados – estendem toalhas no chão e fazem o tempo parar.

Como se estivessem no mais belo dos mirantes, contemplam o rio imundo e a passagem frenética dos carros.

Precisei dar mais uma volta completa no parque até conseguir entender que prazer eles conseguiam enxergar.

Alinhei o meu olhar com o deles e respeitei o silêncio.

O que se ouve é um "vrummmmm" contínuo e distante.

Ele serve de fundo sonoro para uma experiência incomum: a de sair do palco da cidade para ser espectador.

Quem passa a semana praguejando no trânsito da Marginal ganha, no sábado, a chance de olhar aquelas tantas pistas por uma outra ótica. De cima, como se não fizesse parte daquela engrenagem.

Os carros, o trem, o rio – nada daquilo parece real quando deitamos na grama e os observamos de longe.

Concordo com os casais. Aquele lugar "dá um barato".

E é romântico.

É admirável a capacidade dos moradores de São Paulo de encontrar a felicidade numa cidade tão dura.

A explicação, para mim, só pode ser uma: esses heróis da resistência sabem enxergar o valor dos pequenos prazeres.

Inventam oportunidades para que o prazer exista nos lugares mais improváveis.

Um carioca, numa rápida visita a São Paulo, não entenderia a felicidade dos casais que contemplam a Marginal Pinheiros como se estivessem nas Paineiras.

Estranharia também a alegria da mulher apaixonada que ganha flores compradas no Cemitério do Araçá.

Sempre precisei de muito pouco para ser feliz.

Coisas como namorar a noite inteira e, entre um cochilo e outro, reconhecer Neil Young tocando no aparelho três em um.

Acordar ao meio-dia com uma fome de um mês.

Caminhar pela rua plana até a feira de domingo.

Comer dois pastéis com caldo de cana.

A lembrança dessa felicidade vira-lata, que me inspira há tantos anos, vai durar para sempre.

Qual é o efeito terapêutico dos momentos felizes que acumulamos na vida?

O senso comum nos diz que eles só podem fazer bem.

Há quem se dedique a responder isso cientificamente.

A professora de psicologia Barbara Fredrickson, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, tentou medir o valor dos pequenos prazeres.

Durante um mês, 86 voluntários relataram diariamente as emoções que sentiram, em vez de responder a questões genéricas, do tipo "Nos últimos meses, quanta alegria você sentiu?".

O resultado foi publicado no mês passado(julho/2010) na revista científica Emotion, publicada pela Associação Americana de Psicologia.

Quanto mais emoções positivas uma pessoa sentia a cada dia, mais acentuada era sua capacidade de se recuperar de situações difíceis ou estressantes, concluiu Barbara.

Pequenos momentos de prazer fazem florescer as emoções positivas.

Elas nos tornam mais abertos", diz Bárbara.

"E essa abertura para o mundo nos ajuda a construir recursos que favorecem a recuperação diante da adversidade, nos mantém longe da depressão e nos permite continuar a crescer."

Segundo o estudo, ninguém precisa adotar uma postura de Polyana e negar as decepções que a vida nos reserva.

Nem achar que a felicidade seja decorrente apenas dos momentos grandiosos.

As emoções positivas que produziram mais benefícios durante a pesquisa não eram derivadas de eventos extraordinários.

"É preciso valorizar os 'micromomentos' que podem produzir uma emoção positiva aqui ou ali", diz Bárbara.

Cada vez mais busco esses "micromomentos".

Quando minha filha me mostrou no sábado que já era grande o suficiente para deslizar sobre patins in-line, vivi um desses "micromegamomentos".

Ontem mesmo eu estava grávida.

Hoje ela já é essa menina apaixonante que, equilibrada sobre as rodinhas, alcança meu ombro.

Quanto vale olhar aqueles longos cabelos ao vento, aquela franjinha que encobre as sobrancelhas grossas e retribuir o sorriso mais sincero que já vi?

Como diz aquela propaganda de cartão de crédito, isso não tem preço."


CRISTIANE SEGATTO - Repórter especial da Revista Época

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Cisne Negro de cada um



Selecionei esse Texto de CRISTIANE SEGATTO, repórter que escreve sobre Medicina na Revista Época, que comenta o filme Cisne Negro!


"Muita gente correu aos cinemas para conferir Cisne Negro desde que Natalie Portman ganhou o Oscar de melhor atriz.

A festa de Hollywood é passado, mas a questão central despertada pelo filme continuará atualíssima por muito tempo.

É por isso que resolvi falar sobre ela na coluna de hoje. Saí do cinema completamente impactada pelo auge da loucura da bailarina obcecada pela perfeição.

Vou logo avisando: se você pretende assistir ao filme talvez seja melhor fugir deste texto.

Não vou resistir a comentar o fim, o meio, o começo - nessa ou em outra ordem.

Se já o assistiu ou não pretende encarar o turbilhão emocional provocado nos espectadores, siga em frente.

Depois me diga se entendi direito ou se delirei junto com a personagem brilhantemente interpretada por Natalie.

Nina é uma bailarina dedicada que se esforça além da conta para atingir a perfeição técnica.

Em uma das cenas, o diretor da companhia diz que ela é tecnicamente perfeita, mas incapaz de sentir.

Tinha técnica e nenhuma vida.

Outra bailarina, que Nina passa a enxergar como rival em seus delírios persecutórios, é o oposto: está longe de ser tecnicamente perfeita. Mas quando dança, sente.

O maior desafio de Nina é interpretar os dois cisnes - o branco e o negro - no clássico O Lago dos Cisnes.

Esse é também o pesadelo do diretor.

Nina é um primor como o cisne branco, mas não convence na pele do cisne negro.

O papel que a bailarina precisa desempenhar toma conta de sua vida.

O espectador assiste, aos sobressaltos, a transformação da moça doce, pura e inocente numa pessoa descontrolada, agressiva, ensandecida.

Cisne Negro não é uma fábula estapafúrdia.

Ele nos toca justamente porque é verossímil.

Ninguém precisa ser uma bailarina na competitiva batalha pelo melhor papel para despencar naquele abismo.

O filme é quase um aviso: “Ei, todos nós somos cisnes brancos e negros”.

A linha que separa os dois é tênue e fluida.

Nina não parece ser psicopata - aquele tipo de pessoa perversa, desprovida de culpa e capaz de passar por cima de qualquer ser humano para satisfazer os próprios interesses.

Para gente assim não existe cura. Só cadeia.

A bailarina me fez lembrar de quem sofre de algo mais frequente: o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Para muita gente, TOC é a doença de quem pratica atos repetitivos como checar sete vezes se a torneira está fechada antes de sair de casa.

Não é só isso.

O distúrbio tem diferentes nuances e gradientes.

No convívio social, pode passar despercebido.

Um colega de escola, de trabalho, um amigo querido, a mulher, o marido pode estar passando por isso agora mesmo sem que você se dê conta.

“O perfeccionismo é muito característico desse tipo de transtorno”, diz a psicóloga Patricia Vieira Spada, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“Tudo tem que estar no lugar porque a pessoa não suporta lidar com as surpresas da vida.”

Como Nina, quem sofre desse transtorno de ansiedade tem preocupações excessivas, desconforto, medo, aflições, depressão.

A perfeição é um falso porto seguro.

Para não sentir, para não ter afeto, tudo precisa estar sob controle.

Ter afeto é lidar com a imprevisibilidade das relações humanas.

Ninguém sabe o que vem pela frente.

Não ter resposta é dolorido, mas é preciso saber suportar a dúvida.

O desfecho da história da bailarina é clássico.

Reprimida pela mãe e por ela mesma, perde o controle sobre a impulsividade.

Torna-se um bicho agressivo, psicótico, atormentado por alucinações.

“É importante conhecer o cisne negro que existe dentro de cada um de nós”, diz Patricia. “Perigoso é negá-lo.”

Precisamos nos conhecer, entrar em contato com nossa fragilidade.

“Beber desesperadamente como tantos jovens fazem é anestesia cerebral.

Embriagado, ninguém pode pensar.

Isso é investimento constante em cisne negro”, diz Patricia.

A decadência de Nina nos atinge em cheio.

Quem não almeja o sucesso?

Quem não batalha para chegar o mais próximo possível de um desempenho perfeito?

A partir de quando o perfeccionismo se torna patológico?

Segundo Patricia, ele é comum em pessoas que se sentem no centro do Universo.

O sujeito se acha tão importante, tão único, tão insubstituível que não aceita exercer - seja lá o que for - com exatidão.

Quantas pessoas você conhece que agem exatamente assim?

Essa característica pessoal mal administrada passa a ser um problema quando compromete o convívio social ou a saúde - física, mental ou emocional.

Nina alcançou aquilo que julgava ser a perfeição.

Mas não pôde receber o reconhecimento da platéia. "